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domingo, 29 de janeiro de 2012

Teses e dissertações do Núcleo de Educação e Espiritualidade

O Núcleo de Educação e Espiritualidade da Pós-graduação em Educação da UFPE, apesar de ter sido oficializado há pouco tempo, vem dando contribuições filosóficas e científicas significativas ao tratamento da temática da espiritualidade do ponto de vista acadêmico. Já houve algumas teses e dissertações produzidas nessa área nos anos de 2010 e 2011, como, dentre outras, as de Ana Lúcia Leal Chaves, Ana Paula Fernandes Mota, Adriana Coutinho, Roberta Gulart, Ezir George e Leandro David Wenceslau.

Agora, no mês de fevereiro, outras produções serão apresentadas, contribuindo para a consolidação da referida temática no âmbito científico e filosófico. A doutoranda Eugênia de Paula B. Cordeiro e os mestrandos Nyrluce Marília Alves da Silva, Viviane de Moura Coutinho e Maria Socorro Liberal Peixoto, são alguns dos que defenderão seus trabalhos nesse mês. Não disponho das datas e títulos dos trabalhos de todos os concluintes, mas menciono os seguintes:

Dia 10/12/2012, às 10:00h, defesa de dissertação de Nyrluce Marília Alves da Silva, intitulada "Os Usos Pedagógicos da Noção de Cuidado de Si: um estudo sobre a recepção do pensamento de Michel Foucault no campo educacional brasileiro", trabalho orientado pelo Prof. Dr. Alexandre Simão de Freitas. Até onde sei, trata-se de grande contribuição ao entendimento do Foucault espiritual, desconhecido ou rechaçado por muitos.

Dia 27/02/2012, às 8:30h, defesa de tese de Eugênia de Paula Benício Cordeiro, intitulada "Formação Humana para Jovens e Adultos: elaboração, implementação e teste de um componente curricular em cursos tecnológicos do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia - Pernambuco". Em relação a este último trabalho, que conheço mais de perto por ser orientador do mesmo, posso destacar, entre outros aspectos relevantes, uma grande contribuição ao modo de fazer pesquisa sobre a temática da espiritualidade unindo metodologias quantitativas e qualitativas com um referencial teórico fundamentado e expressão existencial da espiritualidade na educação.

Como as defesas são públicas, as pessoas interessadas estão convidadas.

José Policarpo Jr.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A Arte de Cuidar do Ser


Cuidar do Ser é despertar para a nossa verdadeira natureza e iniciar a exploração dos nossos infinitos recursos interiores.
Cuidar do Ser é conspirar por uma transformação social ampla - fruto de uma transformação do espírito e não de um novo sistema ou partido político.
Cuidar do Ser é experienciar a emocionante e inefável percepção da nossa unicidade com toda forma de vida.
Cuidar do Ser é ser o arquiteto consciente de seu próprio destino e dar um significado humano à luta sobre-humana.
Cuidar do Ser é abrir-se para uma dimensão transcendente da consciência, a união do intelecto com a mente intuitiva capaz de perceber os condicionamentos do inconsciente coletivo.
Cuidar do Ser é entregar-se ao daimon que nos impele para a busca do inefável, é exercer um esforço consciente para elevar a um novo patamar o grande edifício da vida humana, é exercer a sua parte na tarefa coletiva de elevar a humanidade a uma consciência mais ampla.
Cuidar do Ser é superar o estágio da busca pela sobrevivência, chamado por muitos de normal, para o estágio da busca de transcendência do pensamento ordinário coletivo.
Cuidar do Ser é fazer parte de uma minoria criativa, voltada para o mundo interior da psique. É aceitar parecer ser um estranho e continuar num avanço constante para a criação de uma vida ainda mais incipiente.
Cuidar do Ser é exercer a capacidade de abraçar a grande insatisfação, diferente de todas as insatisfações anteriores. É ser capaz de sentir a aproximação de uma sublevação, do despertar do nosso condicionamento cultural.
Cuidar do Ser é acreditar no rompimento do transe da alienação e do conformismo coletivo, é conspirar pelo motim das novas gerações. Uma forma de rebelião positiva, manifestada num protesto criativo.

(...)


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Simpósio Internacional sobre Estudos Contemplativos

No próximo mês de abril, acontecerá, em Denver, estado do Colorado, nos EUA, o primeiro simpósio internacional sobre estudos contemplativos, promovido pelo Mind and Life Institute.

Trata-se de ocasião ímpar para conhecer mais de perto como vem ocorrendo, em seu mais alto nível, e em âmbito mundial, o entrelaçamento entre pesquisas científicas (inclusive de larga abrangência empírica), estudos teóricos e tradições espirituais.

No Brasil, pode-se dizer que este diálogo sequer começou. Há pesquisadores isolados, mas nada que indique ainda a existência de um diálogo institucional a respeito. Nesse sentido, ao promover os eventos de 2012, o Instituto de Formação Humana e o Núcleo de Educação e Espiritualidade da Pós-graduação em Educação da UFPE estão colaborando para que tal diálogo possa ser encetado.

É nossa pretensão que pelo menos três dos membros do IFH se façam presentes no referido simpósio em Denver, inclusive para nos informarmos de como se encontra o estado da arte da referida discussão ainda inexistente no Brasil.

Pelo menos já é certo que um dos palestrantes do referido simpósio internacional, o Dr. Mark Greenberg, estará em um dos eventos que iremos promover em outubro deste ano, o que já é uma grande razão para que os que se interessam pela temática se inscrevam nos eventos que estamos promovendo.

Para ir diretamente à página do referido simpósio em Denver e informar-se mais a respeito do mesmo, clique aqui.

José Policarpo Jr.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Diálogo entre o secularismo e as tradições religiosas - reflexões de Habermas

O processo de formação humana, tal como exposto em posts anteriores, é algo impossível de ocorrer sem a contemplação, o esclarecimento e comprometimento progressivos do ser particular com o sentido daquilo que o humaniza e o orienta em seu estar no mundo. A despeito desta insubstituível dimensão formativa singular, dificilmente esta pode ocorrer sem que os entes particulares entrem em contato com instâncias do mundo social e cultural que lhes facilitem, promovam ou instem a trilhar seu próprio caminho formativo. Isto não quer dizer que serão as estruturas do mundo social e cultural que irão proporcionar a formação humana - mesmo porque, em muitos casos, o desenvolvimento humano pessoal, orientado pelo discernimento espiritual, ocorre apesar daquelas estruturas e não por conta delas, veja-se, o caso, por exemplo de Viktor Frankl, Gandhi, Martin Luther King e muitos outros -, mas um determinado clima de esclarecimento espiritual e formativo existente na sociedade pode ajudar alguns em seu trajeto formativo-espiritual próprio.

Neste sentido, considero muito promissora a hipótese de representantes da cultura secular ocidental passarem a se dar conta de que o sentido da vida humana depende de algo mais além da tradição iluminista radical que estruturou o secularismo na maioria das nações ocidentais. Com este espírito, incluo abaixo o link para um artigo de Frédéric Vandenberghe (Professor e Pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos - IESP-UERJ) sobre as últimas reflexões do filósofo Habermas a respeito da contribuição que pode advir do diálogo entre a tradição do esclarecimento secular dos países ocidentais e as tradições religiosas. Não se trata, como se pode ver no artigo, de nenhum dos lados abdicar totalmente em favor do outro, mas, sim, de que o próprio esclarecimento humano possa vir a se aprofundar.

O artigo foi publicado no boletim CEDES. Para ir direto ao artigo, clique aqui.

José Policarpo Jr.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Convicção

Por Ferdinand Röhr

Nietzsche inicia a “Nona parte principal”, intitulada “O Homem consigo mesmo”, da sua obra “Humano Demasiado Humano, parte I”, com o aforismo n° 483, intitulado “Inimigos da Verdade”. Trata-se de apenas uma frase: “Convicções são inimigas mais perigosas da verdade que as mentiras”.

Escrever em aforismos foi uma opção intencional a fim de expressar sua aversão a argumentações racionais, sistemáticas e conclusivas. “Humano Demasiado Humano” foi a primeira obra em que ele se utilizou exclusivamente desse tipo de escrito. Uma das consequências da forma literária dos aforismos é a dificuldade de submetê-los a uma crítica pertinente. Porém, diante do modismo de usar aforismos nietzschianos como argumento em discussões acadêmicas, não dispensaremos uma análise crítica dos mesmos – no nosso caso, do aforismo mencionado.

Não podemos compreender adequadamente esse aforismo se não partimos da visão que o próprio Nietzsche tem da verdade. Para ele, não existe uma verdade última, eterna, única, válida universalmente. Nietzsche somente admite verdades historicamente localizadas, portanto relativas à situação, ao tempo, à localidade, à cultura, enfim, todas as verdades são relativas. Convicções, ao contrário, expressam uma pretensão de verdades válidas de forma incondicional, logo, inimigas da visão da verdade como relativa. Nietzsche expressa o grau de periculosidade desse inimigo na comparação com a mentira. A convicção é mais perigosa do que a mentira. Certamente, Nietzsche chega a essa conclusão porque existe a possibilidade de desvendar as mentiras e confirmar as verdades parciais. Isso não é possível em relação às convicções, pelo menos na visão que o próprio Nietzsche tem das mesmas.

Nos aforismos 629 – 638, entendemos mais claramente o que o nosso autor compreende por convicção. No aforismo 637, ele sintetiza: “Das p a i x õ e s brotam as opiniões, a  i n d o l ê n c i a  d o e s p í r i t o as faz entorpecer enquanto c o n v i c ç õ e s”. De acordo com essa compreensão, as nossas paixões, na qualidade de estados emocionais extremados, levam o homem a fazer afirmações que assumem o lugar de uma verdade inquestionável, uma convicção. Esta, historicamente, assume formas de credos religiosos, políticos e sociais que se confrontam, não raras vezes, com brutal violência. O que possibilita a crença irrestrita numa convicção é unicamente a indolência do espírito, no sentido de intelecto humano. Usando o intelecto, seria possível, na visão de Nietzsche, demonstrar em cada caso de convicção, que ela está baseada em pressupostos restritos, históricos e, portanto, não generalizáveis. O desejável para Nietzsche é que os homens aprendam a abandonar convicções, passando por várias delas  até perceber, enfim,  que é possível e mais adequado viver sem elas.

Poderíamos depositar mais credibilidade na convicção nietzschiana de encontrar no relativismo a fórmula para uma vida mais pacífica, se o próprio Nietzsche não houvesse enveredado numa luta discriminatória e violenta (em termos literários, a fragilidade física não permitiu outras formas) contra representantes de convicções diferentes da dele, principalmente do cristianismo. Só para dar um exemplo: na quinta sentença da “Lei contra o Cristianismo. Guerra mortal contra o vício: o vício é o cristianismo”, que se encontra no fim do “Anticristo”, Nietzsche afirma que “sentar-se com um sacerdote na mesma mesa, exclui. Com isso, excomunga- se a si mesmo da sociedade honrada. O sacerdote é o  n o s s o Tschandala (excluído, no sistema de castas na Índia antiga). Deve-se proscrevê-los, esfomeá-los, empurrá-los para qualquer tipo de deserto.” Afirmações desse tipo, que encontramos em grande número na obra de Nietzsche, revelam que a crença de Nietzsche na força humanizadora do relativismo tem a mesma origem na paixão, como as convicções que ele ataca. Quem não concorda, torna-se inimigo mortal.

Pergunta-se, portanto: somos condenados ao dogmatismo e à intolerância, tanto acreditando na verdade absoluta quanto na relatividade absoluta dela?

Mantemo-nos reféns dessas alternativas somente quando não questionamos os dois pressupostos básicos do pensamento de Nietzsche: O da não existência da verdade absoluta e o de que a paixão é o fundamento da convicção. Na primeira questão, podemos pensar na possibilidade da existência de uma verdade absoluta e, ao mesmo tempo, reconhecer que o homem, ao máximo, pode aproximar-se dela, mas não possuí-la. Essa é a posição de Sócrates, que o próprio Nietzsche combate com tanta violência. Em comum, a crença que em relação à verdade só existe a busca dela. O que os diferencia é que em Sócrates a busca tem uma direção determinada que seria a verdade em si, o que se torna impossível quando se acredita na inexistência dela. Mais ainda, se as certezas alcançadas no caminho não são de validade universal, será que elas não podem ser de validade individual, e mesmo assim assumir um sentido incondicional para esse individuo? Será que não podemos fazer a distinção entre dois tipos de convicção? Uma dogmática e impositiva, que tem sua origem em desequilíbrios emocionais, em relação à qual as críticas de Nietzsche são pertinentes, e uma outra que tem uma fonte que nem é irracional nem racional, mas suprarracional, conduzindo a uma atitude contrária ao dogmatismo, intolerância e violência. Consistiria em uma fonte íntima, no próprio ser humano, que indicaria quais valores e verdades correspondem a ele mesmo e quais as opções que o tornam sempre mais autêntico consigo, bem como os momentos em que tem certeza absoluta, que não pode optar diferentemente sem perder a si mesmo.

Decerto que temos de tratar tais momentos com um máximo de criticidade e retidão diante de nós mesmos. As que se sustentam na vida vivida podemos considerar convicções pessoais, capazes de orientar a nossa vida. Reconhecemos essas na sua característica principal: quem as tem, sabe que não são transferíveis. Tornar-se-ia convicção para o outro somente se ele passasse pelo mesmo processo difícil e doloroso de conquistar a mesma certeza em si.

Óbvio que Nietzsche não fez uma experiência desse tipo. Suspeitava motivações egoístas camufladas em cada sacrifício em prol das convicções dos outros. Isso pode ser verdade nas convicções baseadas em paixões. Sem dúvida, trata-se disso em muitos mártires que tinham como única motivação ganhar a vida eterna, ou nos homens-bomba, nos quais além da fé religiosa prevalece o ódio mortal diante do inimigo. Não acreditamos que esse seja o caso de Sócrates quando aceita sua morte, por considerar que é melhor sofrer uma injustiça do que cometer uma; de Gandhi, quando segue o princípio da não-violência, mesmo prevendo um possível atentado; da juíza Patrícia Acioli, que não abandonou a luta por justiça, ante policiais corruptos, sacrificando a própria vida; ou, enfim, dos inúmeros anônimos que se põem em risco, de uma ou outra forma, por convicção – isenta de interesses egoístas –, certos de que vale a pena o engajamento por um mundo melhor.
 

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